dezembro 04, 2005

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Bolinho de chuva
Carla Dias


Tem esses dias em que a vida parece um passeio na montanha-russa: sobe, desce velozmente, às vezes parece que vai sair dos trilhos, e recorremos à imagem de nós mesmos comendo pipoca, sentados nas poltronas de um cinema quase vazio, assistindo um filme chinês sem legenda, criando para as imagens histórias biográficas; excitados com a possibilidade de zerar o placar e começar de novo, reaver situações e diluí-las sem espasmos emocionais ou realidade egocêntrica.

Esses dias em que tudo parece valer tão pouco, e as conquistas não vão além de fotografias a compor um álbum que servirá, futuramente, como lembranças embauladas a tomarem ar, como a avó de alguém em algum lugar desse mundo, sentada em sua cadeira de balanço, a tarde findável, a varanda espaçosa, a lucidez de quem carregou os anos durante mais de oitenta invernos, mas que antes de encontrar aquela díspar tarde, pariu filhos de um marido que jamais lhe serviu de consolo e, para atestar sua falta de compaixão, foi-se antes dela, deixando-a sozinha a enveredar pela velhice, cansada das mentiras que a juventude pensa serem eternas e que, rigidamente, impõem a quem já as conhece de cor.

Dias de vigília: presenciar a chuva respingar na janela e evocar do mais profundo de si a nota certa, a primeira das que compõe a longevidade da canção preferida, a peculiaridade da memória, ela que embarga a lágrima e a devolve depois, revestida com um sorriso fraternal, um perdão fragmentado por não ter resistido à falência a importância do instante.

Tem dias em que não somos nós mesmos, somos outra pessoa, um indivíduo gritante, um gigante que nos acotovela por dentro na tentativa de nos abortar, que, sedento por liberdade, não se importa em nos extinguir, alimenta-se do que nos fere, ganha força ao vislumbrar nossa impotência diante da fome dele: nos rasga e emenda quando bem quer.

O que fazer com esses dias? Talvez o mesmo que muitas mães fazem aos filhos quando querem vê-los bem: bolinho de chuva.

Publicado por lorenafoiembora em 01:43 PM | Comentários (86)

dezembro 02, 2005

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eu amo você, amo, amo, amo...

Publicado por lorenafoiembora em 11:07 PM | Comentários (675)