Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia ser feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco. Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz. Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crianças indo para a escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como refelectidas no espelho do ar. Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega. Às vezes um galo canta. Às vezes um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz. Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.
Cecília Meireles
"Tenho vergonha de gritar que esta dor é só minha, de pedir que me deixem em paz e só com ela, como um cão com seu osso..."
Caio Fernando Abreu
Se Eu Quiser Falar Com Deus
Gilberto Gil
Se eu quiser falar com Deus
Tenho que ficar a sós
Tenho que apagar a luz
Tenho que calar a voz
Tenho que encontrar a paz
Tenho que folgar os nós
Dos sapatos, da gravata
Dos desejos, dos receios
Tenho que esquecer a data
Tenho que perder a conta
Tenho que ter mãos vazias
Ter a alma e o corpo nus
Se eu quiser falar com Deus
Tenho que aceitar a dor
Tenho que comer o pão
Que o diabo amassou
Tenho que virar um cão
Tenho que lamber o chão
Dos palácios, dos castelos
Suntuosos do meu sonho
Tenho que me ver tristonho
Tenho que me achar medonho
E apesar de um mal tamanho
Alegrar meu coração
Se eu quiser falar com Deus
Tenho que me aventurar
Tenho que subir aos céus
Sem cordas pra segurar
Tenho que dizer adeus
Dar as costas, caminhar
Decidido, pela estrada
Que ao findar vai dar em nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Do que eu pensava encontrar
"Lugares que antes eu nem conhecia abriam-se em esquinas infinitas de ruas doravante prolongáveis."
Antonio Cícero
meu coração despedaçado não aguenta mais, não pode, não quer, não tem tempo, não tem nada que me faça ficar sentado deitado de pé esperando, haja fogo, meu coração não aguenta ficar sentado, calado sofrendo morrendo debaixo da chuva, sentado na calçada no meio do caminho, vereda tropical, esgoto das maravilhas, ilhas trilhas, musical, calma calamidade, fevereiro março abril.
até que pinte outra maneira de viver em paz.
até que não me queiram mais calado embora eu nunca fique como me adoravam, sabe? até que a morte me separe e reintegre após transações heurísticas, sabe? até que tudo igual a nada igual à poeira da ossada, sabe? até que, um dia, enfim.
Torquato Neto
"as paixões são como ventanias que enfurnam as velas dos navios, fazendo-os navegar; outras vezes, podem fazê-los naufragar, mas se não fossem elas não haveria viagens, nem aventuras, nem novas descobertas."
Voltaire
"Terei toda a aparência de quem falhou, e só eu saberei se foi a falha necessária."
Clarice Lispector
talvez eu nunca seja feliz, mas esta noite estou contente. nada além de uma casa vazia, o morno e vago cansaço após um dia ao sol plantando estolhos de morango, um doce copo de leite frio e um prato raso de mirtilos cobertos com creme. agora sei como as pessoas conseguem viver sem livros, sem faculdade. quando a gente chega ao final do dia tão cansada precisa dormir, e ao amanhecer haverá mais morangos para plantar, e vai-se vivendo em contato com a terra. em momentos assim me consideraria uma tola se pedisse mais...
sylvia plath
"Mas era ainda jovem demais para saber que a memória do coração elimina as más lembranças e enaltece as boas e graças a esse artifício conseguimos suportar o passado.'' Gabriel Garcia Marquez
"Fato: porque tudo são fatos, só eles existem, mas isso é outra história; uma história jamais fica suspensa: ela se consuma no que se interrompe, ela é cheia de pontos finais internos, o que agente imagina que poderia ser talvez uma continuação às vezes não passa de um novo capítulo, eventualmente conservando os mesmos personagens do anterior, mas seguindo uma ordem cujas regras nos são ilusioriamente ás vezes familiares? ou internamente aleatórias? Isso eu não sei, mas a verdade é que chega-se sempre longe demais quando não se quer Ir Direto Aos Fatos, e o problema de Ir Direto Aos Fatos é que não há cir-cun-ló-qui-os então, e a maioria das vezes a graça reside justamente nesses Vazios Vultuosos Virtuosos, digamos assim: que nao haja beleza aos fatos desde que vá direto a eles? Ou que não exista mistérios, que haja insuportavelmente dispensável gostar dos tais circunlóquios. Ultrapasse-os, ordeno. Acontece que. Não, nada acontece, mas por favor, não falemos disso agora."
Caio Fernando Abreu
segue o teu destino,
rega as tuas plantas,
ama as tuas rosas.
o resto é a sombra
de árvores alheias.
(ricardo reis
fernando pessoa)
Mas o futuro é desconhecido; ele fica diante do homem semelhante à névoa de outono que se levanta dos pântanos. Nele as aves voam loucamente, para cima e para baixo, rasando com as asas e sem que umas percebam as outras - a pomba não vê o gavião, o gavião não vê a pomba - e ninguém sabe a que distância está voando de sua perdição ...
Nikolai Gógol
A gente chora, chora, por nada, para não rir, e aos poucos vai se sentindo triste de verdade (Ele dobra o lenço, guarda-o no bolso, levanta um pouco a cabeça). Todos aqueles que eu poderia ter ajudado. (Pausa) Ajudar! (Pausa) Salvar. (Pausa) Salvar! (Pausa) Apareciam por todos os lados. (Pausa. Com violência) Usem a cabeça, pensem bem, vocês estão no chão, não tem remédio. (Pausa) Partam! Amem-se! Lambam-se uns aos outros! Sumam da minha frente! Voltem às orgias! (Pausa. Mais calmo)
O fim está no começo e no entanto continua-se. (Pausa) Talvez pudesse continuar minha história, dar um fim e começar outra. (Pausa) Talvez pudesse me atirar no chão. (Com esforço, soergue-se na cadeira. Deixa-se cair.) Cravar as unhas nos vãos e me arrastar adiante, com força nos pulsos. (Pausa) Será o fim então e me perguntarei por que chegou o fim, por qual... (hesita)... por que motivo demorou tanto. (Pausa) Lá estarei eu, no velho refúgio, sozinho contra o silêncio e... (hesita)... a inércia. Se puder me calar, e ficar em paz, estará acabado, todo som, todo movimento. (Pausa) Terei chamado meu pai e terei chamado meu... (hesita)... meu filho. Até duas, três vezes, se não me ouvirem na primeira ou na segunda. (Pausa) E depois? (Pausa) E depois? (Pausa) Ele não pôde, foi longe demais. (Pausa) E depois? (Pausa. Muito agitado) Todo tipo de alucinação! Que estão me vigiando! Um rato! Passos! Olhos! Respiração contida e depois... (expira). Depois falar, depressa, como a criança sozinha que se divide em muitas, duas, três, para ter companhia, conversar com outros, no escuro. (Pausa) Momento sobre momento, pluf, pluf, como os grãos de milho miúdo de... (hesita)... daquele velho Grego, e passa-se a vida esperando que disso resulte uma vida. (Pausa. Quer recomeçar, desiste. Pausa) Ah, lá é o meu lugar! (Apita) Veja! Nem morto, nem longe?
Samuel Beckett, in Fim de Partida
Hamm: Um dia você ficará cego, como eu. Estará sentado num lugar qualquer, pequeno ponto perdido no nada, para sempre, no escuro, como eu. (Pausa) Um dia você dirá, estou cansado, vou me sentar, e sentará. Então você dirá, tenho fome, vou me levantar e conseguir o que comer. Mas você não levantará. E você dirá, fiz mal em me sentar, mas já que sentei, continuarei sentada mais um pouco, depois levanto e busco o que comer. Mas você não levantará e nem conseguirá o que comer. (Pausa) Ficará um tempo olhando a parede, então você dirá, vou fechar os olhos, cochilar talvez, depois vou me sentir melhor, e você os fechará. E quando reabrir os olhos, não haverá mais parede. (Pausa) Estará rodeado pelo vazio do infinito, nem todos os mortos de todos os tempos, ainda que ressuscitassem, o preencheriam, e então você será como um pedregulho perdido na estepe. (Pausa) Sim, um dia você saberá como é, será como eu, só que não terá ninguém, porque você não terá se apiedado de ninguém e não haverá mais ninguém de quem ter pena.
Samuel Beckett, in Fim de Partida