"Quer se trate do corpo de outrem, quer se trate do meu, não tenho outro modo de conhecer o corpo humano, senão vivendo-o, isto é, assumindo por minha conta o drama que me atravessa e fundindo-me com ele”
Merleau-Ponty
Tenho pena das mulheres que não gozam
Monica Montone
Tenho pena das mulheres que não gozam
Elas não sabem
Que sob o colchão
A pele derrete
E que suas grutas ficam quentes
Como lava de vulcão
Desconhecem a meninice dos dedos
Que pulam de um mamilo ao outro
E brincam de esconde-esconde
Sob a chuva de estrelas mil
Não imaginam para que servem as mãos
Nem para que suas bocas foram feitas -
Talvez seja por isso que falem demais
Tenho pena das mulheres que invejam aquelas que gozam
Elas não sabem
Que seus seios são frutas maduras
Morangos, pêssegos, pêras, uvas
Pequenas cerejas mergulhadas em doces trufas
Por suas pernas e ancas
Jamais escorreu o néctar dos deuses
A bebida sagrada
O mel branco que é alimento
Feito leite de cabra
Tenho pena dessas mulheres
Por que elas serão eternamente amargas
E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!
.
Florbela Espanca
de repente cato meus pensamentos
que se vão noite a fora
dançando sem graça e leves
no rastrinho de algum vento.
* dele.
me deu, antes de brigarmos.
:o(
escrito ontem, me foi presenteado hoje.
"Alguém baixou com suavidade minhas pálpebras,
me levando, desprevenido, a consentir num sono
ligeiro, eu que não sabia que o amor requer vigília."
Raduan Nassar
amar é uma viagem com água e com estrelas,
com ar opresso e bruscas tempestades de farinha:
amar é um combate de relâmpagos e dois corpos
por um so mel derrotados.
beijo a beijo percorro teu pequeno infinito,
tuas margens, teus rios, teus povoados pequenos,
e o fogo genital transformado em delícia
corre pelos tênues caminhos do sangue
até precipitar-se como um cravo noturno,
até ser e não ser senão na sombra de um raio.
Pablo Neruda
"Preciso parar. Estou cansado. Pela cabeça, essa luz que não sei se é compreensão ou loucura. É de mim, de ti ou dele que sai essa voz contando o sonho de ontem? Como se fosses tu, assim entras no teatro e te chamam dentro do sonho e te chamam para fazer o papel do sonho de alguém que não veio, e dizes que nunca viste a peça e nunca leste o texto e nada sabes de marcações intenções interiorizações e te dizem que não importa porque é só um sonho e um sonho não precisa ensaio, e já não sabes se começas a rir ou a gritar, então foges para encontrar o outro, mas o rosto da moça tem os olhos do homem e a boca da moça, os seios da moça são os seios da moça, aqueles mesmos, cujos bicos duros roçavam tua barba malfeita quando os beijavas, mas o sexo da moça é o sexo do homem, aquele mesmo que te inundava de esperma quente, e não sentes medo nem nojo, mas te afastas confuso e caminhas caminhas em busca do teatro para entrar em cena e desempenhar tão bem quanto possas o teu papel de sonho do sonho de outro, depois procuras procuras dentro do teatro, em pirâmides de estreitos corredores, e continuas procurando o palco, o vértice, a câmara real, a tua deixa, a tua marca, e antes de acordar não pensas, ou pensas, sim, eu não sei, ele não sabe, tu não sabes nem ninguém se de repente não estarás perdido nem não sabes o papel de cor, pois o palco é a procura do palco e o teu papel é não saber o papel e tudo está certo e a aparente desordem se ordena súbita e a grande ordem de todas as coisas é o caos girando desordenado assim como deve girar o caos, e assim mergulho eu e assim mergulhas tu e assim mergulha ele: a tontura de nossos seis passos equilibra-se instável e precisa sobre o fio da navalha. Mas - sei, sabes, sabemos as uvas talvez custem demais a amadurecer. E quase não temos tempo."
Caio Fernando Abreu, in Morangos Mofados
antes de dormir
ivana debértolis
nada de fato acontece. a noite acaba, sem saber como começou, de onde veio e com que motivos. planejo ontens, confabulo o amanhã e te prometo calma. vá dormir, o dia chegou e só eu resto no resto de noite que quero pra mim. é tudo invenção, supomos e nos pedimos desculpas antes de dormir.
quero voltar para onde? ir para que lugar?
minha resposta é não. eu vou, eu vou. e pode não ser bom. e pode ser ainda melhor.
eu queria ser invisível. resolveria minha questão, posso garantir.
chega de ontens, antes , culpas e esconderijos. desaparecer seria um luxo.
Meu deus, só agora me lembrei que a gente morre. mas - mas eu também?! não esquecer que por enquanto é tempo de morangos. sim.
Clarice Lispector
estamos fudidos, baby
thomas bernard
Aperta o teu sapato
É agora
As montanhas de algodão queimam a pele
O sorriso intenso
a flor do verão mais triste
É a cor do teu destino
Come o teu pão
Levanta e Caminha outra vez
Através dos teus passos
avistei tão longe
Um terceiro rio
Imerso em mim
Deita aqui perto do céu
Ninguém te viu chorar
Naquela noite
Bebe esta cerveja e esquece.
* o primeiro poema a gente nunca esquece, tks g.
"Sei que os campos imaginam as suas próprias rosas. As pessoas imaginam seus próprios campos de rosas. E às vezes estou na frente dos campos como se morresse; outras, como se agora somente eu pudesse acordar."
Herberto Helder
"Lembrete
Não deixe portas entreabertas
Escancare-as
Ou bata-as de vez.
Pelos vãos, brechas e fendas
Passam apenas semiventos,
Meias verdades
E muita insensatez."
Flora Figueiredo
O homem, com suas nobres qualidades, ainda carrega no corpo a marca indelével de sua origem modesta.
Charles Darwin
desanimada. desmotivada.
querendo saber e não tendo vontade de perguntar. chego lá!
hj lembrei, que ele diz que toda vez que ouve king of pain - the police, pensa em mim. triste, não? sinto que, o tempo não destrói sentimentos, recordações... não se pode apagar.
ele é indelével.
estou triste, como a tempos não fico.
Já reparaste que são as pequenas coisas da vida que nos fazem chegar as melhores lágrimas aos olhos?
Raul Brandão, in Húmus
De vez em quando Deus me tira a poesia.
Olho pedra, vejo pedra mesmo.
[...]
Me tira desta areia, ó Espírito
redime estas palavras de seu pó.
Adélia Prado
Um Móbile no Furacão
Paulinho Moska
Você diz que não me reconhece, que não sou o mesmo de ontem
E que tudo o que eu faço e falo não te satisfaz
Mas não percebe que quando eu mudo é porque
Estou vivendo cada segundo e você
Como se fosse uma eternidade a mais
Sou um móbile solto no furacão...
Qualquer calmaria me dá... solidão
Na última vez que troquei meu nome
Por um outro nome que não lembro mais
Tinha certeza: ninguém poderia me encontrar
Mas que ironia minha própria vida
Me trouxe de volta ao ponto departida
Como se eu nunca tivesse saído de lá
Sou um móbile solto no furacão
Qualquer calmaria me dá... solidão
Quando a âncora do meu navio encosta no fundo, no chão
Imediatamente se acende o pavio e detona-se minha explosão
Que me ativa, me lança pra longe pra outros lugares, pra novospresentes
Ninguém me sente...
Somente eu posso saber o que me faz feliz
Sou um móbile solto no furacão
Qualquer calmaria me dá... solidão
* como vc falou: um móbile solto no furacão...
** não sou adepta a ficar postando letras de música, porém, o momento pede.
Menino Bonito
Rita Lee
Lindo,
E eu me sinto enfeitiçada
Correndo perigo
Seu olhar
É simplismente lindo
Mas também não diz mais nada
Menino bonito
E então quero olhar você
E depois ir embora
Sem dizer o porquê
Eu sou cigana
Basta olhar pra você