Sim, eu sou um homem e choro. Um homem não tem olhos ? Não tem também mãos, sentidos, inclinações, paixões ? Porque é que um homem não devia chorar?
August Strindberg
Ando Meio Desligado
Rita Lee
Ando
Meio desligado
Eu nem sinto
Meus pés no chão
Olho
E não vejo nada
Eu só penso
Se você me quer
Eu nem vejo a hora
De te dizer
Aquilo tudo
Que eu decorei
E depois do beijo
Que eu já sonhei
Você vai sentir mas
Por favor
Não leve à mal
Eu só quero que você me queira
Não leve à mal
* fase música.
“Tenho me interessado ultimamente, pela passagem do tempo dentro de uma fotografia.”
Richard Avedon
Chego a mudar de calçada
Quando aparece uma flor
E dou risada do grande amor...
Chico Buarque, in Samba do Grande Amor
“Mas se você se purificou, o caminho se torna longo. E se o caminho é longo, a pessoa pode esquecer para onde ia e ficar no meio do caminho olhando deslumbrado uma pedrinha ou lambendo com piedade os pés feridos pela dor de andar ou sentando-se um instante só para esperar um pouquinho. O caminho era duro e bonito; a tentação era a beleza."
Clarice Lispector
“Também acho uma delícia quando você esquece os olhos em cima dos meus.”
Chico Buarque, in Leite Derramado
"Semeio de meus dedos,
Planto com os rins;
A chuva fina é muda.
Numa senda estreita
Escrevo meu segredo.
Meia-noite só há uma.
O eco é meu vizinho,
A bruma minha sequência."
René Char
Nosso Estranho Amor
Caetano Veloso
Não quero sugar todo seu leite
Nem quero você enfeite do meu ser
Apenas te peço que respeite
O meu louco querer
Não importa com quem você se deite
Que você se deleite seja com quem for
Apenas te peço que aceite
O meu estranho amor
Ah! Mainha deixa o ciúme chegar
Deixa o ciúme passar e sigamos juntos
Ah! Neguinha deixa eu gostar de você
Prá lá do meu coração não me diga
Nunca não
Teu corpo combina com meu jeito
Nós dois fomos feitos muito pra nós dois
Não valem dramáticos efeitos
Mas o que está depois
Não vamos fuçar nossos defeitos
Cravar sobre o peito as unhas do rancor
Lutemos mas só pelo direito
Ao nosso estranho amor
* desejos...
eu me arrebentei, assim, porque o nó era fraco. frouxo. mal dado. eu afundei, em segundos, porque no meu casco havia um buraco milimétrico por onde o mar entrou, aos poucos. inteiro. eu caí com o primeiro vento porque não havia tijolos. eu era construção mal feita. erguida na pressa. madeira com pregos mal batidos. fachada. eu derreti ao sol porque era de plástico. sumi no sopro porque era pó. eu me quebrei na primeira queda porque, por dentro, não havia mais nada. eu me sentia forte, sem saber que já era oco.
Eduardo Baszczyn
Mas o que quer dizer este poema? - perguntou-me alarmada a boa senhora.
E o que quer dizer uma nuvem? - respondi triunfante.
Uma nuvem - disse ela - umas vezes quer dizer chuva, outras vezes bom tempo...
Mário Quintana
Procuro nos búzios e no horóscopo o resto da minha dignidade. Tento ser mais cética, mais durona, mas sou totalmente tendenciosa quando alguma coisa diz que eu posso ser feliz. É sempre mais fácil culpar o autosabotamento com signos do zodíaco ou algo que se preze, do que entender que você, independente de onde marte esteja neste exato momento, gosta de arrancar as próprias penas apenas para ver aonde dói.
Gosta de se cutucar para ver aonde sangra, aonde incomoda, que parte do seu corpo sente mais falta dele, em que momento do dia você perde a razão, fica sem ar, o porquê grita tanto internamente ao ponto que se deita exausta de tanta coisa que é sua, mas que você não sabe lidar, e por isso é fácil apelar para o impalpável e para todas as superstições existentes para que tirem a culpa que você carrega de querer tanto ser como os outros, mas não é.
O amor que tanto se proclama, dessa busca e espera infindável, "que chegue e será bem vindo, que será esperado" que some em alguns meses, que se sobrepõe na esquina por um outro qualquer, por essa falta, esse buraco no estômago, essa fome de se sentir amado, de se sentir querido, de se sentir seguro, quando amor é nada além da sensação de estar caindo e não saber onde se segurar.
E por isso eu culpo toda e qualquer manifestação esotérica, pelo meu amor volúvel que vai para qualquer pessoa que me desperte algo que valha terminar o dia, e sendo assim é mais fácil despejar em alguma coisa impalpável a minha incapacibilidade de ser como o resto das pessoas.
Porque eu nunca tive motivos para acreditar em nada que dure para sempre. Porque eu sempre fui tocada pelas mais diferentes formas de vida e por qualquer frase um pouco mais inteligente, porque dói entender que a posição da lua não interfere no quanto eu morro um pouco todos os dias. Porque eu acredito em tudo e isso de não descartar nada, me faz voltar para casa depois de me apaixonar a cada esquina, e querer uma cama só.
Eu me machuco pra saber onde dói, mas hoje sei exatamente que parte de mim sente mais falta dele. Tudo.
Madame Bovary
* ao boris, a vida. ao tempo q tivemos longe.
Coleção
Cassiano & Paulo Zdanowski
Sei que você gosta de brincar
De amores
Mas Oh, comigo não,
comigo não
Sei também que você eu não sei
Mas nada
Um dia, você
vai, ouvir alguém
O que ouvi de ti
Então irá, pensar, como eu sonhei em vão
Não vá, ou vá
Você é quem quer
Quer saber eu amo você
Sei que você gosta de brincar
De amores
Mas Oh, comigo não,
comigo não
Sei também que você eu não sei
Mas nada
Um dia, você
vai, ouvir alguém
O que ouvi de ti
Então irá, pensar, como eu sonhei em vão
Não vá, ou vá
Você é quem quer
Quer saber eu amo você
No escuro as palavras não existem não têm porque existir as palavras não precisam. Sendo nem sim nem não nem certos nem sabedoria apenas abandono irreflexão um inominável mesmo o divertimento numa fuga a mímica do coração que escondido agora o que se abre feito enfim ser sem. Que nunca seja tarde a isto ao que se dá a quem que nunca seja tarde assim mesmo a cada vez aquele íntimo olhar olhos fechados este sem rumo uma vagueza boa este sem jeito este ser sem ter mesmo que ser. A cada vez esta primeira vez. Que nunca seja nada nem seja apenas si de tanto a mais. A minha consciência nua absurda crua primitiva inventa sorrisos únicos inventa melodias inventa exaustões e estrelas e a noite acorda a noite faz-se ver.
luci collin
"Por quê você faz cinema?"
Para chatear os imbecis
Para não ser aplaudido depois de seqüências
dó de peito
Para viver a beira do abismo
Para correr o risco de ser desmascarado
pelo grande público
Para que conhecidos e desconhecidos
se deliciem
Para que os justos e os bons ganhem dinheiro,
sobretudo eu mesmo
Porque, de outro jeito a vida não vale a pena
Para ver e mostrar o nunca visto
o bem e o mal, o feio e o bonito
Porque vi "Simão no Deserto"
Para insultar os arrogantes e poderosos quando ficam
como "Cachorros Dentro D'água" no escuro do cinema
Para ser lesado em meus direitos autorais.
Adriana Calcanhoto e Joaquim Pedro Andrade
* ele sabe e isto basta.