A gente chora, chora, por nada, para não rir, e aos poucos vai se sentindo triste de verdade (Ele dobra o lenço, guarda-o no bolso, levanta um pouco a cabeça). Todos aqueles que eu poderia ter ajudado. (Pausa) Ajudar! (Pausa) Salvar. (Pausa) Salvar! (Pausa) Apareciam por todos os lados. (Pausa. Com violência) Usem a cabeça, pensem bem, vocês estão no chão, não tem remédio. (Pausa) Partam! Amem-se! Lambam-se uns aos outros! Sumam da minha frente! Voltem às orgias! (Pausa. Mais calmo)
O fim está no começo e no entanto continua-se. (Pausa) Talvez pudesse continuar minha história, dar um fim e começar outra. (Pausa) Talvez pudesse me atirar no chão. (Com esforço, soergue-se na cadeira. Deixa-se cair.) Cravar as unhas nos vãos e me arrastar adiante, com força nos pulsos. (Pausa) Será o fim então e me perguntarei por que chegou o fim, por qual... (hesita)... por que motivo demorou tanto. (Pausa) Lá estarei eu, no velho refúgio, sozinho contra o silêncio e... (hesita)... a inércia. Se puder me calar, e ficar em paz, estará acabado, todo som, todo movimento. (Pausa) Terei chamado meu pai e terei chamado meu... (hesita)... meu filho. Até duas, três vezes, se não me ouvirem na primeira ou na segunda. (Pausa) E depois? (Pausa) E depois? (Pausa) Ele não pôde, foi longe demais. (Pausa) E depois? (Pausa. Muito agitado) Todo tipo de alucinação! Que estão me vigiando! Um rato! Passos! Olhos! Respiração contida e depois... (expira). Depois falar, depressa, como a criança sozinha que se divide em muitas, duas, três, para ter companhia, conversar com outros, no escuro. (Pausa) Momento sobre momento, pluf, pluf, como os grãos de milho miúdo de... (hesita)... daquele velho Grego, e passa-se a vida esperando que disso resulte uma vida. (Pausa. Quer recomeçar, desiste. Pausa) Ah, lá é o meu lugar! (Apita) Veja! Nem morto, nem longe?
Samuel Beckett, in Fim de Partida